quarta-feira, 30 de abril de 2008

Circuitos Cerebrais Podem Explicar Efeito Sanfona


Quem me conhece e conhece um pouco da minha história acadêmica, sabe que durante algum tempo trabalhei com pesquisa científica na UFRJ e, mesmo estando afastado, ainda tenho grande carinho e interesse por alguns temas. E acredito que este artigo que estou "repetindo" aqui é um deles.

Fonte: Nutritotal
Autor: Chico Damaso

Erradicado há dois anos e meio nos Estados Unidos, o brasileiro Ivan de Araújo, juntamente com outros pesquisadores, concluiu na Universidade de Duke, na Carolina do Norte, Estados Unidos, que, mesmo na ausência de qualquer estímulo gustativo, o cérebro é capaz de preferir alimentos mais calóricos.

O cientista, desconfiado do paladar como mecanismo único, passou a estudar os mecanismos biológicos que fazem as pessoas engordarem, por meio de camundongos em laboratório.

Embora o paladar desempenhe importante papel na busca dos animais por nutrientes, mecanismos cerebrais estimulam a procura por alimentos mais calóricos. A conclusão veio a partir da modificação destes camundongos, fazendo com que perdessem a capacidade de sentir sabores doces.

Mesmo assim, os animais continuaram preferindo os alimentos mais calóricos, contrariando o que até então se sabia sobre o consumo exagerado de calorias.

Embora as bases neurobiológicas não estejam totalmente compreendidas, o estudo avaliou os circuitos cerebrais ligados à recompensa e aos valores metabólicos. Segundo os autores, foi possível comprovar que camundongos sem maquinaria celular para doce e sabor desenvolveram forte preferência por soluções de sacarose, com base exclusivamente no teor calórico. Também foi observado que a indução de ingestão da sacarose acarretou em liberação de dopamina, geralmente associado à recompensa.

Neurônios localizados nesta mesma região mostraram aumento da sensibilidade à ingestão calórica, mesmo na ausência de insumos gustativos. Os resultados sugerem que nutrientes ricos em calorias podem influenciar diretamente a recompensa de circuitos cerebrais que controlam a ingestão alimentar, independentemente de palatabilidade.

Os resultados do trabalho, que poderá auxiliar na compreensão de causas da obesidade, foram publicados na última edição da revista Neuron, no artigo Food reward in the absence of taste receptor signaling, de Ivan E. de Araújo e outros.

O CÉREBRO E AS VERSÕES LIGHT

Com base no estudo, o autor sugere que diminuir o consumo de calorias por meio da substituição de alimentos por versões light talvez seja ineficaz. Mesmo que o gosto e a aparência sejam semelhantes, os mecanismos cerebrais podem interferir, preferindo a versão mais calórica.

A recompensa, portanto, não está no sabor, mas nas calorias. Além desse mecanismo, independentemente da palatabilidade, influenciar para o consumo de alimentos mais calóricos, os estímulos de recompensa, que respondem ao que é palatável, também respondem ao valor nutritivo, ainda que na ausência da gustação.

O ESTUDO

Foram analisados dois grupos de camundongos. No primeiro, animais geneticamente modificados para não sentir sabores doces. O outro grupo era formado por camundongos normais.

No estudo controlado envolvendo os dois grupos, foram oferecidas soluções de água com altas concentrações de açúcares (sacarose), água pura e água com um adoçante comercial (sucarose). Tanto os animais normais, quanto os impedidos de detectar sabores, preferiram a água com sacarose. O comportamento se manteve mesmo com a mudança de lugar dos reservatórios de água.

A clara preferência pela caloria, mesmo na ausência de prazer ligado ao paladar, foi comprovada ao substituir a sacarose pelo adoçante artificial sucarose. Enquanto o animal normal também gostava do adoçante, o camundongo transgênico manteve-se indiferente.

Em análise aos padrões cerebrais dos camundongos mutantes, o sistema de recompensa permaneceu ativo quando havia calorias, mesmo sem o componente sensorial. Na ausência de calorias, os níveis de emissão não eram detectáveis. Nos animais normais, os níveis aumentavam em ambos os casos.

Para o primeiro autor do estudo, Ivan de Araújo, embora o “sexto sentido” dos animais para alimentos calóricos não tenha sido desvendado, uma explicação plausível é que hormônios presentes no cérebro sejam capazes de detectar receptores para insulina. Outra possibilidade apontada pelo cientista é que o cérebro seja capaz de detectar alterações nos níveis sangüíneos de glicose por meio de hormônios específicos.

Referência(s)

Araújo IE, Oliveira-Maia AJ, Sotnikova TD, Gainetdinov RR, Caron MG, Nicolelis MAL. Neuron 2008;57:930-941. Food Reward in the Absence of taste Receptor Signaling. Disponível em: http://www.neuron.org/content/article/abstract?uid=PIIS0896627308001190. Acessado em 22.04.2008

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