domingo, 6 de julho de 2008

A Força da Terra e o Brasil

"No dia em que um quilo de picanha custar mais do que um MP4 ...."

Embora pareça um exagero, hoje já não é tão irreal uma afirmativa desta dimensão. Quando colocamos o século XXI em perspectiva, notamos o quanto a banalização dos bens tecnológicos - cada dia mais desvalorizados - rivaliza com a crescente valorização dos recursos naturais, escasseados pelo crescimento desordenado e irresponsável do planeta nos últimos 100 anos. Não está, de fato, distante o dia em que um quilo de picanha custará mais do que um MP4.

Neste novo cenário, os beneficiados serão naturalmente aqueles países que contarem com um alto potencial de recursos naturais; dentre os quais se encontra, no topo da lista, o Brasil. Até o final do século passado, acreditávamos que nossas reservas de petróleo e gás fossem modestas, e partíamos da falsa premissa de que somente o petróleo era um recurso natural de real valor. Hoje não há a menor dúvida de que, no futuro, mantendo-se as devidas proporções, a água terá tanto ou maior valor do que o petróleo.

Habituamo-nos a viver em um mundo no qual a tecnologia sempre foi erguida em um pedestal e onde os recursos naturais - entre eles o alimento - pareciam fonte inesgotável. Agora, nossa grande crise é a luta para assimilar, aceitar e viver uma nova realidade.

Atualmente, sabemos que países como China e Índia, apesar de terem conseguido um expressivo desenvolvimento econômico (graças ao domínio da tecnologia industrial), já enfrentam graves problemas com a falta de água, e que isto tende a se agravar - a Ásia, além de apresentar o assustador desnível de 35% dos recursos hídricos do planeta contra aproximadamente 60% da população, apresenta um grau de poluição dos seus rios e águas subterrâneas que permanece incontrolável.

A agricultura e a indústria consomem grandes quantidades de recursos hídricos. O conceito de água virtual - água gasta na produção de outros bens - nos mostra que cerca de 6 mil litros são necessários para que apenas um quilo de frango chegue à nossa mesa.

É neste ponto que as expectativas em relação ao Brasil disparam: com recursos hídricos em fartura e inúmeras fontes de energia (petróleo, gás, hidrelétrica etc), o país tem tudo para se transformar no maior exportador de alimentos do mundo. Com apenas 20% de suas terras aráveis plantadas, a situação brasileira é única no mundo. E as possibilidades não param por aí. Em território nacional, o nível de insolação é espetacular, podendo assegurar excelentes safras e, futuramente, a promissora energia solar.

Mauro Kahn é analista da geopolítica do petróleo e ambiental e diretor do Clube do Petróleo

O Globo OnLine

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