sábado, 11 de outubro de 2008

Tio Dedé

Já o tio Dedé fazia questão de contar a sua vida, e a história que mais repetia era a do filme que fizera em Hollywood. Os mais velhos já estavam cansados de ouvir a história, mas sempre aparecia alguém novo para o tio Dedé impressionar.

- O senhor fez um filme em Hollywood, seu Dedé?

- Apareço numa cena.

- Que filme era?

- Você não deve ter visto. Não é do seu tempo. O nome em inglês era “ailand ovilovi”.

- Como é?

- “Ailand ovilovi”. Acho que nunca passou no Brasil.

- Com quem era?

- Dorothy Lamour. Não é do seu tempo.

- E como foi que o senhor entrou no filme?

- Eu fazia parte de um conjunto, Los Tropicales. Tocava bongô e cantava. Isso foi lá por quarenta e poucos. Época da guerra. Mas conjunto se desfez em Los Angeles porque a cantora, Lupe, uma cubana, descobriu que o marido dela, que tocava pistom e se chamava, sabe como? Rafael Rafael. Assim mesmo, um nome duplo.

Descobriu que o Rafael Rafael estava namorando uma pequena americana, aliás um pedaço... E lá se ia o tio Dedé com a sua história, que mudava em alguns detalhes mas era sempre a mesma, mais ou menos elaborada de acordo com o grau de interesse de quem ouvia. Com Los Tropicales desfeito o tio Dedé precisara se virar em Los Angeles e acabara contratado como figurante num filme passado nos Mares do Sul, mas todo filmado em Hollywood mesmo. A cena em que o tio Dedé aparecia, segundo ele, era forte. Era num bar em que a Dorothy Lamour cantava.

Ela passava pela sua mesa, cantando, tirava o cigarro da sua boca e Ihe dava um beijo. "Até ficamos amigos", contava o tio Dedé. Um dia...

- Titio! O seu filme não se chama Island of love.

- É esse mesmo.

- Vão passar hoje na televisão!

Grande sensação. A família toda se reuniu e convidou gente para ver "o filme do tio Dedé". Que estava estranhamente quieto quando se sentou na frente da TV. O filme começou, continuou e parecia estar terminando e nada de aparecer a cena do tio Dedé.

- Quando é, tio?

- Calma.

Mas o filme terminou e a cena não apareceu. Todos se viraram para o tio Dedé, numa interrogação muda. E então ele, depois de um instante de hesitação, pulou da cadeira e bradou aos céus, indignado:

- Cortaram! Cortaram!

Luis Fernando Veríssimo

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