quinta-feira, 23 de abril de 2009

Síndrome de Adônis (Anorexia Reversa)

A obsessão por um corpo sarado pode ser sintoma da vigorexia, distúrbio cada vez mais comum nas academias. Homens atingidos pelo transtorno querem ganhar mais e mais massa. Você está nessa?

Você malha pesado todos os dias, segue rigorosamente uma dieta de crescimento muscular, toma um monte de suplementos e ainda assim fica deprimido quando se olha no espelho, achando que não está tão sarado quanto poderia? Então, cuidado. O problema pode não estar no corpo, mas na sua cabeça. Dependendo da sua ânsia de construir um físico sarado, você corre o risco de ser uma vítima da vigorexia, distúrbio que afeta os malhadores compulsivos

Conhecida também como síndrome de Adônis ou anorexia reversa, a doença é descrita por psiquiatras como um transtorno disfórmico muscular que atinge mais os homens. Por trás do nome pomposo existe uma patologia com características semelhantes às de outros transtornos obsessivos- compulsivos (como anorexia e bulimia) e que pode ter graves conseqüências físicas, de doenças cardiovasculares à esterilidade. Seu principal sintoma é a preocupação exagerada com a aparência, mesmo quando já se tem um corpo sarado. Embora pratiquem exercícios compulsivamente e desenvolvam os músculos de forma exagerada - exibem braços gigantes, peitoral que parece explodir dentro da camiseta -, os homens afetados pelo problema vivem insatisfeitos com seu tamanho e querem ganhar mais massa. O termo vigorexia foi cunhado pelo psiquiatra americano Harrison Pope, da Faculdade de Medicina de Harvard (EUA), o primeiro a estudar o transtorno, nos anos 1990. Pope fez uma ampla pesquisa sobre a imagem que os homens têm deles próprios, a que achariam ideal para si e a preferida das mulheres. Os resultados mostraram que, ao projetar eu corpo ideal, os homens vítimas da síndrome queriam aproximadamente 13 quilos a mais de massa muscular do que tinham.
Entretanto, é preciso cautela para não confundir os vigoréxicos com os narcisistas marombados. “Em sua maioria, os vigoréxicos apresentam baixa estatura, são tímidos, perfeccionistas e têm problemas de auto-estima”, afirma a psiquiatra paulista Jocelyne Rosenberg, especializada no assunto e autora do livro Lindos de Morrer: Dismorfia Corporal e Outros Transtornos Obsessivos (Editora Celebris, 112 págs). Buscam na academia uma saída para suas frustrações. Os músculos não param de crescer, mas, para eles, nunca é o suficiente. “Quando um vigoréxico se olha no espelho, vê a imagem de um corpo a ser aperfeiçoado. Daí a eterna insatisfação”, diz Jocelyne. Segundo a psiquiatra, na adolescência muitos deles sofreram atos agressivos praticados entre estudantes. Assim, quando crianças, foram intimidados ou humilhados por serem magros ou baixinhos.

Um levantamento de Harvard, nos Estados Unidos, mostra que a vigorexia atinge 11% dos americanos que freqüentam regularmente academias de ginástica. No Brasil, não há estatísticas sobre o problema, mas os especialistas estimam que o grau de incidência é semelhante por aqui. A falta de informação é a principal causa para o desenvolvimento do transtorno, principalmente entre os jovens - calcula-se que 60% dos vigoréxicos têm entre 14 e 26 anos, embora não exista uma idade-limite para que o problema se manifeste. Esses jovens percorrem um ciclo repleto de armadilhas. A primeira é o próprio ambiente das academias, propício a comparações. Decidida a atingir bíceps maiores que o do cara no aparelho ao lado, a vítima não respeita o nível máximo do corpo. Como sempre se acha inferior aos colegas de malhação, exagera na carga de exercícios. A compulsão e a pressa em queimar etapas do treinamento, ignorando os intervalos necessários para a recuperação do organismo, prevalecem sobre o cansaço e o bom senso. É comum que, nesse estágio, o candidato a Hércules comece a manifestar sintomas de estresse, como irritação ou angústia. A preocupação com o corpo o leva a se afastar dos amigos, da namorada, das baladas e de todos os compromissos que possam atrapalhar seus treinos, que vêm sempre em primeiro lugar.
O outro passo na busca pelo corpo perfeito costuma envolver uma mudança na alimentação que beira o fanatismo. O vigoréxico costuma ser uma enciclopédia quando o assunto é dieta. Essa é minuciosamente regulada, com ênfase excessiva na ingestão de proteínas. Alimentos gordurosos (como as frituras), refrigerantes e doces, que atrapalham o desenvolvimento muscular, são riscados do cardápio - os xiitas eliminam até as frutas mais doces, por causa da quantidade de açúcar que contêm. Não é difícil flagrar um vigoréxico no vestiário da academia manipulando o arsenal de suplementos que consome antes, depois e até durante a malhação. Todo conhecimento que ele busca avidamente em todas as fontes possíveis (livros, revistas, fóruns na internet, instrutores da academia e conselhos de amigos) é testado e incorporado à rotina: alimentar-se a cada três horas, incluir no cardápio controlado um coquetel de shakes de proteína, cápsulas de aminoácidos e vitaminas - tudo com base em cálculos complexos do tempo que o corpo leva para metabolizar os nutrientes ingeridos.

Se o exagero ficasse por aqui, o vigoréxico ainda assim poderia ser considerado uma pessoa saudável. O drama é que a ansiedade por resultados rápidos leva grande parte deles ao consumo de anabolizantes, medicamentos à base do hormônio testosterona que promovem acelerado crescimento muscular. A testosterona é produzida pelo próprio organismo masculino: ajuda a fortalecer a musculatura, os tecidos e a memória. Para casos específicos, com acompanhamento médico, o hormônio é utilizado no tratamento de alguns tipos de câncer, anemia e osteoporose. Os supermarombeiros, porém, costumam usar fórmulas sintéticas de testosterona para aumentar o volume muscular, os esteróides. Seu uso virou febre nas academias pelos resultados rápidos, pois os músculos “incham” após poucas doses. “É razoavelmente comum ganhar até 5 quilos de massa muscular em um mês com consumo intensivo de anabolizantes, dependendo da quantidade ingerida e do perfil físico”, diz o endocrinologista Nardo Ouriques, do Rio de Janeiro. Daí a sensação de que todo bombado parece um pit bull num corpinho de poodle. Os anabolizantes podem ser encontrados na forma de comprimidos, gel ou injetáveis. Embora sejam medicamentos controlados, várias comunidades na internet oferecem contatos de venda por e-mail. Quem tem dificuldade de obter receita médica acaba recorrendo aos anabolizantes de uso veterinário - os para cavalos são os preferidos -, mais fáceis de ser adquiridos.

A maioria dos homens que sofrem de vigorexia nunca teve nenhum tipo de acompanhamento adequado na academia”, afirma o personal trainer carioca Rafael Sales, que também treina atletas de vale-tudo. “Eles fazem as coisas de orelhada: estipulam as séries de exercícios e os pesos, montam a própria dieta e, principalmente, escolhem os suplementos. Desprezam a planilha de treinos, as dicas do nutricionista e nunca consultam um médico. Só observam o que deu certo para os colegas da academia e acham que é só imitar”, acrescenta. Essa falta de discernimento é, dizem os especialistas, a principal contradição dos vigoréxicos. Apesar de obcecados por saúde, agridem o corpo na busca do que consideram a forma ideal. No caso do uso de esteróides, sofrem efeitos que podem ser devastadores e, em alguns casos, irreversíveis. Os primeiros sintomas dos danos são vômitos, náuseas, palpitação e aumento da pressão, muitas vezes confundidos com mal-estares passageiros ou resultado da sobrecarga de exercícios. E o pior vem depois.

“O uso indiscriminado dessas drogas leva a alterações sangüíneas que podem causar derrame cerebral, problemas vasculares, males cardíacos e hepáticas e disfunção erétil”, enumera José Milfont, presidente da Sociedade Brasileira de Urologia - RJ e estudioso da vigorexia. “Os anabolizantes estimulam o desenvolvimento do câncer de próstata. Se o homem já é propensoà doença, tomar essas drogas equivale a jogar gasolina no fogo”, explica. Outro problema comum é a ginecomastia, crescimento anormal das glândulas mamárias por causa do excesso de hormônio, que causa no homem o constrangedor surgimento de seios protuberantes. “Em alguns meses, já começam a surgir efeitos colaterais”, avisa o endocrinologista Nardo Ouriques. O perigo que a maioria ignora é a possibilidade de o fortão virar um fracote na cama. “O anabolizante inibe a produção de testosterona, causando atrofia testicular. Assim, o sujeito vai precisar cada vez mais desse hormônio artificial para manter o vigor - o que pode gerar infertilidade e até impotência”, diz Milfont. Mesmo quem deveria dar o exemplo já pagou caro por abusar das bombas. O ator, fisiculturista e atual governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, teve que trocar válvulas cardíacas por válvulas de coração de porco, em 1997, em conseqüência do uso de esteróides. Na época, ele disse que o problema cardíaco era congênito, informação que nem parentes levaram a sério.
A boa notícia é que o transtorno tem cura. O tratamento inclui sessões de terapia em que o psiquiatra orienta o paciente a controlar a compulsão para malhar, aliadas ao uso de medicamentos antidepressivos, que ativam a serotonina - neurotransmissores que controlam os hormônios responsáveis pelo humor, depressão, ansiedade e fome.
Antes de se deitar no divã, porém, a maioria dos vigoréxicos arrebentou músculos e articulações por excesso de exercícios, comprometeu o orçamento com suplementos importados e, às vezes, detonou o fígado por causa dos anabolizantes.
Sim, porque na maior parte dos casos, o vigoréxico só se conscientiza dos males provocados por essas substâncias depois que o estrago foi feito. O empresário carioca Maurício Chuek, hoje com 30 anos, viveu a experiência. Quando começou a freqüentar a academia, aos 16 anos, tinha o perfil típico do vigoréxico: baixo e magro, queria ganhar músculos a todo custo. “Malhava duas horas por dia, mas só deslanchei quando tomei anabolizantes em ciclos regulares a cada oito semanas”, admite. Seu peso, que era de 65 quilos, pulou para 82 em dois anos. Aos 20 anos, media 1,72 metro e pesava 100 quilos. “Os amigos e a família diziam que eu estava deformado. Tive tendinite nas articulações dos joelhos e dos cotovelos por causa da sobrecarga de peso, mas ainda achava que poderia melhorar.”
Chuek constatou que, embora tivesse adquirido massa muscular, seu corpo tinha 12% de gordura. Passou então a treinar muay thai, uta conhecida como boxe tailandês, para aumentar o desempenho aeróbico e queimar gordura. “Foi quando percebi que meu peso pouco adiantava, pois sou baixo. Parei de tomar anabolizantes, me dediquei mais à luta com acompanhamento especializado e adotei a carga de exercícios correta e uma dieta equilibrada.”
A história dele tinha tudo para um final feliz, mas os efeitos das bombas apareceram dois anos depois. Primeiro, teve de fazer uma cirurgia por causa da ginecomastia. Depois, aos 24 anos, após muitas tentativas de engravidar a namorada, descobriu que estava estéril. Fez tratamento, conseguiu conceber um filho e hoje, com 75 quilos e apenas 6% de gordura corporal, se diz arrependido do antigo estilo de vida. “Minha forma física atual é muito melhor do que quando tinha 18 anos”, assegura Chuek, que é dono de uma galeria de arte no Rio de Janeiro e se prepara para ingressar no circuito profissional de muay thai.
À primeira vista, o vigoréxico parece ser um tipo facilmente identificável nas academias. Mas quem mergulha com tudo na malhação nem sempre percebe que está ultrapassando os limites. A preocupação com a aparência é uma tendência do homem moderno - e nada mais natural do que batalhar um reforço nos bíceps para tirar suspiros das mulheres. A própria prática de exercícios, que costuma desencadear reações bioquímicas responsáveis pela sensação de prazer, acaba estimulando a busca por resultados mais expressivos. Assim, a linha que diferencia o que é prazeroso do comportamento compulsivo pode ser tênue demais.

A pesar do perfil de contornos nebulosos, dá para saber se você - ou seu amigo - está se tornando uma vítima da doença. “O vigoréxico, mesmo sem saber, emite vários sinais de que tem a síndrome”, afirma Jocelyne Rosenberg. Avalie se você não está abusando dos suplementos, o tempo que passa na academia, se não está obcecado por subir na balança e se olhar no espelho. O distanciamento de amigos e da família e o surgimento de surtos de depressão também podem ser indicativos.
“Não adianta sair malhando sem orientação ou querer queimar etapas”, ensina o preparador Rafael Sales. “A alimentação balanceada, por exemplo, contribui em 60% para a boa forma, seja para quem pretende ganhar massa, reforçar a musculatura ou perder gordura”, afirma. Segundo ele, a mistura indiscriminada de diferentes tipos de suplementos pode afetar o metabolismo e alterar o efeito desejado. Na pirâmide da boa forma, os exercícios aeróbicos vêm em seguida, pois ajudam a queimar gordura e a perder peso, e a musculação aparece apenas em terceiro lugar. Portanto, para atingir o corpo perfeito, não é preciso viver na academia ou bitolado em dieta. Basta usar o bom senso e relaxar - antes que sua namorada troque seus bíceps pelos de um cara menos sarado, mas que saiba curtir a vida.

Fonte: Mens Health – 04/2008

3 comentários:

Renato e a Galera disse...

"antes que sua namorada troque seus bíceps pelos de um cara menos sarado, mas que saiba curtir a vida."

Estranho esse final,nem toda mulher gosta de curtir a vida prefere ficar em casa com maridao ou ir malhar com ele =),bom tem gente que curte a vida usando drogas e etc,e muitas outras coisas,tudo no mundo tem uma critica seja boa ou não,adorei tudo que escreveu excelente,ta de parabéns,so comentei pra descontrair !

Dr. Rodrigo Fontes disse...

Valeu!
Vou tentar faze-lo melhor!

Anônimo disse...

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