sexta-feira, 19 de março de 2010

O Feitiço do Corpo Ideal


Insatisfação com a auto-imagem e luta contra a gordura se transformam em obsessão

Bem, muitos do que lêem este BLOG vão se surpreender, mas este foi o título de uma das reportagens de VEJA, em fevereiro de 1998, ou seja, a mais de 12 anos! Você lerá nas linhas a seguir que muita coisa ainda não mudou, ou pior, se tornarão mais "intensas". A busca por um corpo perfeito é cada dia mais cruel. Mas a pergunta que faço sempre: Qual o modelo de perfeição física? O que é beleza? O que seria um corpo perfeito?


Releiam a matéria a seguir e reflitam.

Todo dia ela faz tudo sempre igual. Defronte do espelho, enquanto se veste para ir ao trabalho, avalia milimetricamente a curvatura da barriga, confere a linha dos culotes, compara o volume das pernas diante das formas de gazela da modelo da capa da revista. Checa a densidade de seios e nádegas e conta o número de buraquinhos da celulite. O exame é meticuloso e o resultado, sempre condenatório: "Preciso emagrecer". VEJA obteve os resultados de uma pesquisa inédita, realizada pelo instituto Jaime Troiano Estratégias de Consumidor, sobre a imagem que têm de si as mulheres entre 20 e 45 anos das classes A e B de São Paulo. De cada dez entrevistadas, nove declaram profunda insatisfação com o próprio corpo (veja quadro abaixo). "Se a senhora pudesse mudar alguma coisa em sua aparência, o que mudaria?", quiseram saber os pesquisadores. Mais da metade delas gostaria de bater os olhos no espelho e encontrar uma imagem bem mais esguia do que a real. Elas querem afinar a silhueta como um todo, perder a barriga, diminuir as nádegas.

É uma batalha que exige privações e sofrimento. Quase 60% das entrevistadas fazem dieta para perder peso. Abriram mão da sensação de saciedade e não conseguem olhar sem culpa para um bolo de chocolate. Uma em cada quatro submete-se a tratamentos médicos para emagrecer, muitos deles à base das famosas "bolinhas", as anfetaminas. A luta tem um lado mais sombrio do que o corte da feijoada de sábado. As drogas que sabotam a fome também aumentam os níveis de irritação, dificultam o sono e atrapalham qualquer trabalho que exija concentração. O nível de ansiedade do usuário atinge o grau máximo e chega-se a trincar os dentes de nervoso. Uma em cada cinco entrevistadas disse já se ter submetido a intervenções cirúrgicas na forma de plásticas ou lipoaspirações. Não é preciso perguntar a motivação de tanto sacrifício. Qual é a mulher que não quer ser mais bonita, mais magra, consertar um defeitinho, ainda que imaginário? O mesmo questionário já havia sido aplicado à população americana pela revistaPsychology Today, com resultados análogos. Seis em cada grupo de dez entrevistadas também se declararam insatisfeitas com a própria aparência. Dessas, 89% queriam emagrecer. O impressionante, em ambos os casos, é o grau de insatisfação revelado pelas pesquisas. O anseio, tão compreensível, de melhorar a aparência eventualmente atinge níveis de desvario. Uma em cada seis das entrevistadas americanas daria mais de cinco anos de sua vida para ter o que imagina ser o peso ideal. Morreria jovem e magra que felicidade!

É um paradoxo. Nunca a humanidade pôde comer tanto e nunca quis comer tão pouco. Por quê? As duas hipóteses mais em voga professam que: 1) a medicina condena os excessos adiposos, logo, emagrecer é um imperativo da boa saúde; 2) há uma conspiração da indústria da beleza, da moda, da publicidade, do cinema e da televisão para impor o padrão "magrela" e, assim, conseguir vender remédios, roupas, matrículas em academias de ginástica, pagar honorários em clínicas de cirurgia plástica e spas de emagrecimento. Sobre a primeira hipótese, fala a psiquiatra Angélica Azevedo, coordenadora do Programa de Transtornos Alimentares da Universidade Federal de São Paulo: "Não se pode culpar a medicina pelos padrões de beleza dos anos 90. Nas sociedades ocidentais, o corpo definido como esteticamente perfeito é bem mais leve do que o preconizado pelos cientistas como ideal de saúde". Estudos americanos revelam que essa diferença já chega a 20%. Do ponto de vista de um endocrinologista sério, uma mulher de 1,75 metro, pesando 64 quilos, não tem o que fazer num consultório. Sob a ótica do modelo de beleza vigente, contudo, ela é gorda. Estaria em forma se, ao subir na balança, esta lhe fizesse o elogio secretamente ansiado: 55 quilos. Não é de saúde, pois, que se trata.

Estética da magreza A outra hipótese, aquela segundo a qual há uma conspiração da indústria da beleza, da moda e do cinema para impor um padrão de beleza, é uma conhecida bandeira das feministas. Essa hipótese se baseia em alguns argumentos razoáveis. Uma organização não-governamental americana chamada About-Face, em defesa da imagem das mulheres gorduchas os Estados Unidos têm disso , reuniu num único trabalho os resultados de várias pesquisas sobre como o sexo feminino é abordado pela estética da magreza. Alguns deles:

Em 1992, as revistas americanas destinadas a mulheres estampavam 10,5 vezes mais artigos relacionados a dietas e perda de peso do que as masculinas.

69% dos personagens femininos das séries de televisão são magros, contra apenas 17,5% dos homens. As mulheres gordas são apenas 5% do total, enquanto os homens gordos, 26%

No Brasil, mais pobre em estatísticas, parece ser assim também. Tente-se lembrar de uma gorda televisiva que não seja Claudia Jimenez, a comediante que interpretava a caricata empregada Edileusa, do programaSai de Baixo, ou Silvia Poppovic. É difícil. Já homens gordos aparecem em todas as novelas. Fica muito fácil, no entanto, citar mulheres com corpos espetacularmente esguios: Carolina Ferraz, Adriane Galisteu, Silvia Pfeifer, Lavinia Vlasak, Malu Mader e outras tantas beldades magras.

Mas essa hipótese da conspiração, que carrega um traço de paranóia e tem o defeito de reduzir uma questão complexa a mera batalha em torno do lucro, também não se sustenta. O argumento irretorquível da psiquiatra Angélica Azevedo: "Existe mesmo uma indústria da magreza, ela fatura alto, é verdade. Mas também existe uma indústria de alimentos que fatura alto, e ninguém em sã consciência diria que é a indústria que cria a fome". Xeque-mate. E volta-se à velha questão: por que a gordura corporal se tornou uma obsessão moderna?

"Dois fatores se combinam para responder à questão. O primeiro é que, de fato, nunca a humanidade foi tão gorda, em que pese a existência de alguns focos de fome epidêmica, como na África. O outro é que nunca houve tamanha veiculação dos modelos de beleza, o que dispara uma verdadeira corrida em direção ao ideal estético", resume o endocrinologista Alfredo Halpern, da Universidade de São Paulo. Gravados nas moléculas do DNA, por força da seleção natural, estão os momentos de fome angustiante pelos quais a humanidade passou em estiagens prolongadas, congelamentos súbitos, pragas devastadoras, escassez de caça. Só os que tinham programas genéticos para acumular calorias leiam-se gorduras sobreviveram, transmitindo essa característica para as proles. Eles engordavam nos tempos de abundância e torravam os excessos nos períodos de escassez. Por 200.000 anos, gerações e gerações de homens e mulheres viveram muito bem com esse mecanismo de estocagem de energia. Mais recentemente, o homem aprendeu a plantar, desenvolveu técnicas de adubagem, colheita, armazenagem e conservação de suprimentos. A produtividade do solo foi multiplicada por vinte, contra um crescimento vegetativo da população de cerca de seis vezes, resultando numa oferta constante de comida que não tem precedente na longa caminhada do homem sobre o planeta. O comércio e a indústria também contribuíram para aumentar a quantidade e variedade dos alimentos, colocados agora à disposição das pessoas em templos do consumo chamados supermercados. Só que a espécie humana, do ponto de vista genético, não foi feita para viver nessa fartura.


"A biologia humana ainda reflete um estilo de vida baseado na caça e na coleta, como o que existia no nosso passado paleolítico", diz Halpern. "A epidemia de obesos da época atual resulta do choque entre essa natureza e a cultura de afluência em que vivemos." Estudos entre populações atuais que ainda vivem da coleta e da caça não registram casos de obesidade, o que leva a crer que esse problema virtualmente inexistiu para nossos antepassados. Enquanto isso, dados do Ministério da Saúde dos Estados Unidos mostram que, de 1980 para hoje, o número de americanos com sobrepeso saltou de 25% da população para 34%. São 58 milhões de gordinhos, gordos e gordões, movidos a hambúrgueres, bacon e batatas fritas, muitas vezes pateticamente acompanhados do selo fat free sem gordura. Os dados brasileiros também apontam nesse sentido: no mesmo período, o número de mulheres gordas cresceu 40% e o de homens, 30%. No total, o país acumula cerca de 30 milhões de indivíduos com gordura extra, dos quais 7 milhões considerados obesos segundo os padrões médicos. São motivos de sobra para que legiões afluam aos consultórios e academias para emagrecer.



"Falência moral" A batalha contra o excesso de peso, no entanto, está longe de se confinar aos estridentemente rechonchudos. Cinco ou 10 quilos a mais do que o peso pluma exibido por uma modelo de 18 anos estragam a vida de muitas mulheres. Os médicos americanos Peter Brown e Vicki Bentley-Condit, no artigo "Cultura, evolução e obesidade", publicado no livro Manual da Obesidade, a mais nova bíblia sobre o assunto, dizem que o controle do corpo se tornou quase uma questão de boas maneiras: "Nossa cultura de valorização da magreza transformou a obesidade em um símbolo de falência moral". Denota descuido, preguiça, desleixo, falta de disciplina. Também denota pobreza, como eles ressaltam, com base em pesquisas. "Nos países desenvolvidos, quanto mais alta a classe social, menores os índices de obesidade nas populações de homens, mulheres e crianças", explica o endocrinologista Geraldo Medeiros. "Nas baixas estrações sociais é o contrário que ocorre." Um levantamento feito pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro em 1996 mostrou que os índices de obesidade entre os pobres eram 20% superiores aos das classes A e B.

Ninguém duvida de que uma mulher de 1,70 metro pesando 80 quilos tenha gordura de sobra. Mas um traço atual é a reclamação de indivíduos que "se sentem gordos" sem o ser. Isso acontece porque a obesidade é um fenômeno que toca duas esferas simultaneamente, a psicológica e a física. Os americanos Brown e Bentley-Condit cruzaram dados sobre o corpo ideal de 1943 a 1980 e perceberam que a definição de "peso ideal" para mulheres baixou constantemente no decorrer do período, enquanto, para os homens, permaneceu aproximadamente a mesma. Um exemplo dramático é dado pelos concursos de miss. A miss universo de 1968, a baiana Marta Vasconcelos, media 1,72 metro e pesava 59 quilos. Um centímetro mais alta, a miss de 1996, a venezuelana Alicia Machado, pesava 8 quilos menos ao ganhar o título (a atormentada Alicia é a miss que engordou depois da vitória e foi ameaçada de perder a faixa). O corpo padrão ficou mais fino e não foi por causa dos cânones médicos que permanecem inalterados há décadas. Foi, sim, porque mudaram os modelos culturais e estéticos.

Bombardeio de imagens Os padrões de beleza, decorrentes em princípio da busca pelo parceiro mais adequado à propagação da herança genética, vêm sofrendo há milênios a influência da cultura. Segundo os estudiosos do assunto, o desejo de diferenciação social tem um papel de enorme importância na definição do que é belo: quanto mais afastado dos estratos subordinados e mais próximo das elites, mais bonito se é. "A polaridade, no caso da beleza corporal, enraíza-se em uma profunda rede de exclusões. Inacessível à maioria, o belo é um signo de distinção social para poucos", afirma a historiadora Maria Angélica Soler, da PUC de São Paulo. A história da beleza no Brasil oferece bons exemplos. No final do século XIX, mulheres com a compleição roliça de dona Domitila de Castro, a marquesa de Santos que enlouqueceu dom Pedro I de paixão, estavam longe de ser consideradas fora do padrão. Ao contrário. Corpos cheios, braços roliços e seios fartos, cobertos por uma macia camada adiposa, eram interpretados como sinônimo de afluência, por oposição à escravaria. A tez branquíssima contrapunha-se ao moreno e negro dos trabalhadores braçais. Na transição entre as décadas de 60 e 70, a figura libertária de Leila Diniz, bronzeada, em biquínis ousados, era a antípoda das mulheres recrutadas em massa pelo setor de serviços e trancafiadas em escritórios. Sentadas, na maior parte do tempo, essas mulheres viram seus corpos arriar. E o ideal passou a incorporar músculos bem delineados, já que o operário não tem tempo nem dinheiro para freqüentar academia de ginástica, contratar um personal trainer ou consultar um nutricionista. Foi assim que gordura se tornou traço de pobreza.

A existência de cânones de beleza não é, portanto, o que singulariza os tempos atuais. A feminista americana Naomi Wolf (autora de O Mito da Beleza) notou que o traço peculiar da época é que a mulher comum de antes da Revolução Industrial, confinada aos trabalhos domésticos e à vida social limitada ao bairro, possivelmente nunca experimentou o sentimento da mulher moderna em relação à beleza. "Esta vive o mito da beleza como uma contínua comparação com um ideal físico amplamente difundido." Wolf explica: "Antes da invenção de tecnologias de produção em massa daguerreótipos, fotografias, filmes etc. , uma mulher comum era exposta a poucas imagens dos tipos ideais de beleza feminina fora da igreja". O bombardeio de imagens dos dias atuais, somado à exuberância e variedade dos alimentos disponíveis nas prateleiras dos supermercados, congestiona as mulheres de complexos e desejos voltados para a conquista do corpo perfeito. Amanhã, de novo, todas elas estarão diante do espelho. Como todo dia.

Por Karina Pastore e Laura Capriglione

Fonte: Veja

Um comentário:

Anônimo disse...

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