terça-feira, 3 de agosto de 2010

Alimentos Funcionais

Os alimentos funcionais estão cada vez sendo mais consumidos por que além de fornecerem nutrientes necessários ao organismo possuem propriedades especiais, relacionadas com a promoção da saúde, podendo reduzir os riscos das doenças, principalmente as crônicas, que mais acometem as populações mundiais como o câncer, obesidade, hipertensão arterial, diabetes mellitus e doenças cardiovasculares.

Nos últimos anos a ciência da nutrição tem tomado outro rumo, novas fronteiras se abrem ligando a nutrição e medicina com o surgimento de alimentos funcionais. O termo funcionalidade significa a propriedade do alimento que vai além de fornecer nutrientes. É um conceito até certo ponto novo e que tem variados alcances e uma vasta nomenclatura: nutracêuticos, alimentos de desenho, alimentos para uso médico, alimentos para uso saudável, entre outras.

O consumo desses alimentos vem aumentando bastante, como resultado de uma preocupação individual com a saúde. Porém, alguns alimentos não possuem ação científica comprovada, devido à grande variedade de alimentos existentes e às inúmeras etapas de avaliações necessárias para comprovar seus efeitos.

As doenças crônicas que mais preocupam, principalmente os países desenvolvidos, estão muitas vezes associadas com a dieta: câncer, obesidade, hipertensão, doenças cardiovasculares. No entanto, devido à complexidade dessas citadas inter-relações entre os componentes dos alimentos, traçar uma relação de causa e efeito inequívoca e definitiva é praticamente impossível. Os alimentos funcionais correspondem a aproximadamente 7% do mercado mundial de alimentos. Assim, neste primeiro artigo sobre os alimentos funcionais, procuramos abordar alguns alimentos funcionais que tem sua atividade razoavelmente estudada.

Fibra Alimentar (FA)

FA é a parte comestível de plantas ou carboidratos análogos, que são resistentes à digestão e à absorção no intestino grosso de seres humanos. A FA inclui polissacarídeos, oligossacarídeos, lignina e substâncias associadas de plantas. A FA promove efeitos fisiológicos benéficos, facilita a evacuação, diminui o colesterol sanguíneo e a glicose sanguínea.

Alguns componentes dessas fibras são denominados prebióticos, chegando intactos ao intestino grosso, sem ter sofrido nenhum tipo de degradação ou absorção, e lá são metabolizados seletivamente, por um número limitado de bactérias denominadas benéficas. Estas são assim chamadas, pois alteram a microbiota do cólon, gerando uma microbiota bacteriana saudável, capaz de induzir efeitos fisiológicos importantes para a saúde.

Pesquisas realizadas nos últimos 25 anos demonstraram que os efeitos das fibras, sobre o trato gastrintestinal, têm importantes conseqüências metabólicas que podem resultar em redução do risco de doenças como câncer, diabetes mellitus (tipo 2) e doenças cardiovasculares.

A Fibra Alimentar, também atua das seguintes formas:

  • Reduz os níveis de colesterol plasmático e das lipoproteínas de baixa densidade (LDL – colesterol), sendo que somente as fibras com alta viscosidade apresentam essa característica.
  • Reduzindo a velocidade de esvaziamento gástrico pelo aumento do nível de um hormônio chamado colecistoquinina (CCK), auxiliando numa menor absorção da glicose e das gorduras, pois essa absorção é feita de modo mais lento, sendo associado a um melhor controle glicêmico, em pacientes diabéticos.
  • Melhora as funções do intestino grosso por meio de redução de tempo de trânsito, aumento do peso e freqüência das fezes.
  • Os ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), produzidos pela fermentação da FA no intestino, estão associados à manutenção da mucosa do intestino, sendo um fator de proteção contra o câncer de cólon.
  • As principais fontes de fibras são grãos (aveia, cevada e centeio), Frutas (maçã, limão, laranjas, lima), vegetais, legumes e tubérculos.
Prebióticos e Probióticos

Os prebióticos e os probióticos são atualmente os aditivos alimentares, que compõem os alimentos funcionais, estando geralmente presentes em produtos como iogurtes naturais ou industrializados. Prebióticos são componentes alimentares não digeríveis, que afetam beneficamente o hospedeiro, por estimularem seletivamente a proliferação ou atividade de bactérias habitantes normais do intestino grosso. Adicionalmente, o prebiótico pode inibir a multiplicação de patógenos, garantindo benefícios adicionais à saúde do hospedeiro. Esses prebióticos são fibras como a inulina e o fruto oligossacarídeo, ingeridas na dieta e fermentadas no intestino pela microbiota intestinal. As principais fontes de inulina e oligofrutose, empregadas na indústria de alimentos são a chicória (Cichorium intybus) e a alcachofra de Jerusalém (Helianthus tuberosus).

Os probióticos são microrganismos vivos, administrados em quantidades adequadas, que conferem benefícios à saúde do hospedeiro. A influência benéfica dos probióticos, sobre a microbiota intestinal humana, inclui fatores como efeitos antagônicos, competição e efeitos imunológicos, resultando em um aumento da resistência contra patógenos.

Efeitos atribuídos aos Probióticos e Prebióticos

Os benefícios à saúde conferidos pelos probióticos são: Controle da microbiota intestinal; estabilização da microbiota intestinal após o uso de antibióticos; promoção da resistência gastrintestinal à colonização por patógenos; diminuição da população de patógenos através da produção de ácidos acético e lático, de bacteriocinas e de outros compostos antimicrobianos; promoção da digestão da lactose em indivíduos intolerantes à lactose; estimulação do sistema imune; alívio da constipação; aumento da absorção de minerais e produção de vitaminas. Embora ainda não comprovados, outros efeitos atribuídos a essas culturas são a diminuição do risco de câncer de cólon e de doença cardiovascular.

Soja

No Brasil é o alimento que mais oferece possibilidades para o desenvolvimento dos produtos funcionais. A soja está tendo uma considerável atenção, devido à qualidade e quantidade de proteína, sendo considerada um ótimo alimento de origem vegetal. Já é comprovado que seu consumo, em grande quantidade, baixa a incidência de doenças cardiovasculares, osteoporose, sintomas da menopausa e certos cânceres (mama, próstata e colón).

Foi observado que mulheres que vivem nos países asiáticos, consomem de 30 a 50 vezes mais produtos de soja que as ocidentais, e foi registrada uma diferença da excreção urinária de isoflavonas (componente ativo presente na soja, semelhante ao estrogênio humano, chamado de fitoestrógenos), entre as ocidentais e as mulheres orientais que era surpreendente: Enquanto se constatou ema excreção de 2000 – 3000 nmol/24h de isoflavonas nas orientais e nas ocidentais a excreção foi em torno de 30 –40 nmol/24hs, sendo verificada o consumo de 50 – 100 mg/dia nos orientais e menos de 1 mg/dia nas ocidentais.

A partir de 38 estudos clínicos, comprovou-se o efeito benéfico das proteínas da soja sobre os lipídios séricos. Os pesquisadores concluíram que são necessárias, no mínimo, 25g de proteína de soja/dia para reduzir os níveis de colesterol total, LDL e triglicérides. Sendo assim foi reconhecido que todos os produtos que tenham mais de 6,25g de proteína de soja/porção "reduzem o risco de doença cardiovascular". Os fitoestrógenos são biologicamente ativos nas mulheres e nos homens, inibindo células tumorais. Na soja há também as isoflavonas, que têm uma atividade antioxidante. Estudos mostram que quando esses dois componentes estão juntos, combinados em uma quantidade adequada, é possível reduzir o risco ou prevenir doenças como as cardiovasculares, osteoporose, certos tipos de câncer como de mama e próstata, além de amenizar os sintomas da menopausa, principalmente as ondas de calor.

Atualmente existem estudos avaliando o papel da genisteína (uma isoflavona da soja) em melhorar a função cognitiva (memória, raciocínio, concentração, etc) e prevenir doenças neurodegenerativas, como o mal de Alzheimer. As isoflavonas da soja podem agir de três diferentes formas: como estrógenos e anti-estrógenos; como inibidores de enzimas ligadas ao desenvolvimento do câncer e como antioxidantes.

A proteína de soja é considerada a de melhor qualidade entre as proteínas vegetais, assemelhando-se muito às proteínas da carne. Além do excelente conteúdo de proteínas de alta qualidade, a vantagem de se utilizar a carne de soja, em relação às carnes em geral, está no baixo conteúdo de gorduras saturadas do alimento, na ausência de colesterol e no alto teor de fibras. A única desvantagem fica por conta do menor conteúdo de ferro e ausência de vitamina B12, nutriente encontrado somente em alimentos de origem animal. A fervura, o cozimento e a tostagem não trazem grandes prejuízos nutricionais. Além disso, o processamento térmico é importante, para inativar fatores anti-nutricionais presentes no grão e para inativar também a ação de enzimas (lipoxigenases), que dão à soja um sabor desagradável.

Alho

Pesquisas têm demonstrado efeitos, principalmente em relação a sua atividade imuno estimulante, antiaterosclerótica, anticancerígena, normalizadora da pressão arterial, promotora da atividade fibrinolítica (ou seja, da cicatrização) e inibidora da agregação plaquetária e antimicrobiana. Embora alguns dos resultados ainda sejam conflitantes, devido às falhas metodológicas, as evidências sugerem resultado positivo contra várias enfermidades.

Atualmente seu poder terapêutico é reconhecido pelo ministério da saúde. Além de seu uso culinário, nas mais variadas culturas, desde a antiguidade, é usado como medicamento para as mais variadas moléstias. Os estudos científicos identificaram a presença de vários compostos que agem terapeuticamente, no tratamento de parasitoses, desconforto gastrintestinal, dislipidemias, verminoses intestinais, na doença hipertensiva, cardiovascular, câncer, além das atividades antiinflamatórias, antimicrobiana, e antiasmática.

Estudos epidemiológicos e experimentais evidenciam a ação anticarcinogênica do alho, principalmente devido à presença dos seus componentes sulfurados. Foi comprovada que a atividade dos leucócitos, de pessoas alimentadas com alho, é 139% superior do que a dos leucócitos de pessoas que não incluíam o alho em sua alimentação. Esta proteção parece ser resultado de vários mecanismos: bloqueio da formação de compostos nitrosaminas, proteção hepática contra substâncias carcinogênicas, supressão da bioativação de vários carcinogênicos, aumento do reparo do DNA e redução da proliferação celular. Possivelmente vários desses eventos, ocorrem simultaneamente e a ação dos componentes sulfurados parece ser influenciada por diversos componentes da dieta

Vinho

As bebidas possuem compostos antioxidantes, tornando-se atrativas na prevenção de doenças, especialmente o vinho tinto, o qual contém os polifenóis. O suco de uva e o vinho tinto contêm os compostos fenólicos, presentes nos fitoquímicos, que apresentam uma elevada atividade antioxidante. Os antioxidantes, bloqueadores de radicais livres, são os principais agentes inibidores da carcinogênese. Vários estudos mostram que o consumo de bebidas alcoólicas diminui a agregação plaquetária, sendo que os fenólicos do vinho também inibem a oxidação do LDL. O consumo moderado de álcool, associado às DVC, em pacientes com diabetes utilizando o vinho tinto, juntos às refeições, não causa nenhum dano.

Tomate e cebola

Na atualidade, o consumo do tomate têm aumentado cada vez mais, principalmente entre os da faixa etária acima de 40 anos, por motivos que vão além de suas características organolépticas, mas, sobretudo devido as propriedades funcionais deste alimento. Está comprovado pela ciência, que o pigmento licopeno (que confere a cor vermelha ao tomate quando maduro) que é um tipo de carotenóide da família dos terpenos, e confere a propriedade funcional ao tomate, assim como outros pigmentos presentes como os flavonoídes.

O licopeno, segundo estudos científicos atuais, possui atributos como o de ser anticarcinogênico e antioxidante, o seu efeito antioxidante consiste em poder inibir a ação dos radicais livres, produtos das reações do organismo, sendo os lipídeos e demais fluídos corporais protegidos da ação deletéria dos radicais livres, evitando a oxidação das células e conseqüentes patologias associadas. Conforme ensaios clínicos, muitos já conclusivos, têm-se observado que um consumo regular de tomate, pode diminuir a incidência de neoplasias principalmente do esôfago, intestinos, estômago, bexiga, colo uterino, pele e até pulmões.

Outro importante guardião da boa saúde é o tubérculo cebola, planta hortense originada do bulbo é largamente utilizada em temperos e saladas cruas temperadas, com sabor e aroma bem característicos. A cebola, assim como a chicória, soja, alho, aspargo e banana, possuem os oligossacarídeos que fazem parte de um grupo composto ainda de frutooligossacarídeo e inulina (citados anteriormente em prebióticos e probióticos) verdadeiros auxiliares da saúde. Devemos ainda atinar para outra substância encontrada na cebola, de fundamental importância funcional, a alicina, que é antibiótica, atua na oxidação das vitaminas do complexo B e na sua absorção, baixa os níveis lipídicos, controla a pressão arterial, aumenta as defesas imunológicas e inibe a ação das nitrosaminas (resultantes dos nitratos e nitritos, aditivos utilizados na indústria de alimentos para os embutidos) que são potencialmente carcinógenos.

Feijão

O consumo, em quantidades de média a alta, de feijão, está sendo associado à diminuição do desenvolvimento de doenças como o diabetes, obesidade, doenças cardiovasculares e até mesmo neoplasias. Acredita-se que esse efeito benéfico seja devido à presença de metabólitos secundários nessa leguminosa, os fitoquímicos.

Considerações finais

O conceito sobre os alimentos funcionais vêm significando, desde simples alimentos com substâncias protetoras, até produtos caracterizados como "suplementos alimentares". Aqui no Brasil o alimento ou ingrediente, que alegar propriedades funcionais ou de saúde pode, além de funções nutricionais básicas, quando se tratar de nutriente, produzir efeitos metabólicos e ou fisiológicos benéficos à saúde, devendo ser seguro para consumo sem supervisão médica. Os principais mecanismos de ação e os respectivos efeitos benéficos dos diversos alimentos funcionais são: atividade antioxidante e proteção de órgãos vitais (fígado, cérebro, rins, sistema cardiovascular); modulação de enzimas de detoxificação de xenobióticos (compostos tóxicos); diminuição da agregação plaquetária e do risco de trombose e aterosclerose; alterações no metabolismo do colesterol e diminuição do risco de aterosclerose; controle nas concentrações de hormônios esteróides e do metabolismo endócrino; redução da pressão sanguínea; efeitos antibacterianos e antivirais; atividades anti-inflamatórias; efeitos anticancerígenos.

Uma vida saudável está relacionada não somente com os alimentos que são ingeridos, mas faz parte de todo um contexto, no qual estilo de vida, hereditariedade e a interferência do meio têm cada um o seu peso. Não podemos considerar os alimentos funcionais milagrosos, mas sim como parte desse contexto em que visa a prevenção de doenças.

Fonte: Uol

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