sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Estudo investiga a relação entre obesidade e trauma psicológico

Cirurgia bariátrica para redução do estômago, colocação de balões gástricos e remédios que inibem o apetite são alguns exemplos de terapêuticas atuais usadas para tratar a obesidade mórbida. Para a psicanalista Joana de Vilhena Novaes, mais importante do que métodos rápidos e sedutores, é entender por que esse tipo de paciente, particularmente nas classes populares, se torna obeso e que lugar a comida ocupa em sua constituição psíquica e afetiva. Para isso, ela integra a equipe do Laboratório de Pesquisas Clínicas e Experimentais em Biologia Vascular (BioVasc), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), onde realiza o acompanhamento psicológico dos pacientes, junto ao serviço médico. 

Ali, continua-se propondo a perda de peso gradual, fundamentada na reeducação alimentar e na prática regular de atividades físicas. "Nosso objetivo é reduzir a desistência do tratamento e evitar que o obeso volte a engordar. Nesse sentido, temos tido bons resultados, apesar do tratamento lento e, para alguns, pouco atrativo. 

Nosso serviço se tornou um diferencial porque o paciente se sente acolhido e termina trazendo outros para a clínica, inclusive familiares", defende a psicanalista, que realiza seu estudo com bolsa do programa de apoio ao pós-doutorado no estado do Rio de Janeiro (PAPDRJ), da parceria Capes-FAPERJ. O BioVasc oferece esse serviço na Policlínica Piquet Carneiro, unidade de saúde da Uerj. 

Em seu pós-doutorado, sob a supervisão da pesquisadora e coordenadora do BioVasc, Eliete Bouskela, Joana investiga a relação entre obesidade e trauma psicológico especificamente nas classes menos favorecidas economicamente. "Temos observado que boa parte dos nossos pacientes pertence a uma das comunidades de baixa renda próximas à universidade. A grande maioria teve algum tipo de trauma decorrente, por exemplo, de abuso sexual, testemunho de assassinato dos pais etc. É justamente após essas experiências que eles desenvolvem obesidade, nesses casos sempre acompanhada de depressão e de uma profunda melancolia", diz a pesquisadora. Ela frisa que esses dois estados emocionais são graves problemas psicológicos e contribuem para desistência do tratamento e para a não sociabilidade do paciente. "Meu objetivo é entender por que esse tipo de paciente se torna obeso. Sobretudo, quero compreender as especificidades clínicas do trauma e entender como suas consequências interferem no comportamento psíquico e social desse obeso", resume Joana. 

Particularidades do serviço multidisciplinar do BioVasc 

Partindo da premissa que a obesidade é uma síndrome plurifatorial, Joana explica que, já na primeira consulta, o paciente é avaliado por uma equipe multidisciplinar, formada por um psiquiatra, um psicólogo, um nutricionista, um professor de educação física e três residentes do Hospital Universitário Pedro Ernesto (Hupe). Como explica a pesquisadora, é traçada uma análise de todo o histórico genético e familiar do paciente, que depois é submetido a exames para verificar doenças associadas à obesidade, como diabetes e hipertensão. Com base nos resultados clínicos, sugere-se um plano de atividades aeróbicas e musculares e se propõe uma reeducação alimentar específica para os hábitos e a rotina do paciente.

Numa extensa análise psicológica, é realizado ainda um psicodiagnóstico e uma cuidadosa avaliação psiquiátrica. "Em alguns casos, prescrevemos só terapia, mas em outros a associamos com medicamentos antidepressivos e ansiolíticos", explica a pesquisadora. Como psicanalista do serviço, Joana indaga sobre as causas e consequências psíquicas da obesidade e também sobre a melhor forma de tratar seus sintomas e promover medidas para prevenir o aumento de seus índices. 

Segundo Joana, o método adotado é a psicanálise clássica, ou seja, busca-se a saúde mental por meio do diálogo sistemático sobre as vivências traumáticas. "Falar exaustivamente faz com que os pacientes vivam, por um momento, o luto por suas perdas e traumas, que por vezes são tão dramáticos e violentos. Mas depois daquele momento, eles se tornam aptos a superá-los", explica a pesquisadora. 

Se, por um lado, o objetivo da inclusão do atendimento psicológico ao tratamento é aumentar a adesão do paciente ao que foi prescrito e melhorar seu convívio social, por outro, procura-se garantir a multidisciplinaridade. "Agora, oferecemos um serviço biopsicosocial, que pode ser visto também como uma medida profilática. Ou seja, quando uma mãe, por exemplo, muda seus hábitos alimentares, ela diminui a probabilidade de que seus filhos sejam obesos", afirma a pesquisadora.

A pós-doutoranda destaca que a obesidade já se caracteriza como um problema de saúde pública e que atualmente tem-se observado um crescimento de casos já na infância e na adolescência. "A realidade fica mais cruel, quando entendemos que a sociedade demonstra uma clara ‘lipofobia’, que quer dizer medo da gordura. Isso faz aumentar o nível da psicose coletiva em busca do corpo perfeito, bem como o preconceito com quem está acima do peso, mais claramente com que está obeso", resume. 

Joana estuda há anos a relação entre o que ela chama de doenças da beleza (compulsão alimentar, anorexia, bulimia, obesidade etc) e o comportamento social contemporâneo das diferentes classes sociais. Como resultado de seu trabalho, ela já publicou dois livros sobre o tema: O intolerável peso da feiúra: sobre as mulheres e seus corpos e Com que corpo eu vou: sociabilidade e usos do corpo nas mulheres das camadas altas e populares. Este último foi também resultado de uma pesquisa financiada pela FAPERJ. 

No Brasil, os dados são alarmantes. Uma pesquisa de 2007, realizada pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM), aponta que 63% da população brasileira estão acima do peso. Os dados ratificam a importância de se ter um eficiente atendimento hospitalar de combate e prevenção à obesidade. "Isso é o que tentamos fazer no BioVasc", conclui Joana.

Autora: Elena Mandarim
Fonte: Faperj

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