sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Estudo mostra necessidade de rever controle do diabetes no País

O diabetes do tipo 1 é uma doença que faz com que o organismo humano destrua as células responsáveis pela produção do hormônio da insulina, fazendo com que o açúcar absorvido pelo corpo humano não seja transformado em energia. Neste caso, o nível de glicose na corrente sanguínea torna-se excessivo. Entre várias complicações, a doença pode levar a problemas de visão, nos rins e no coração. Resultados de um levantamento inédito, feito entre 2008 e 2010, alertam para o risco de uma epidemia e a necessidade de se rever a maneira como tem sido feito o controle da doença. O alerta é da médica endocrinologista, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e Cientista do Nosso Estado da FAPERJ, Marília de Brito Gomes. Ela coordenou o levantamento, que verificou as condições de saúde de 3.591 crianças, adolescentes e jovens adultos em 20 cidades das cinco diferentes regiões do Brasil.

A pesquisadora chama atenção para outra iniciativa que coordena: o site Diabetes nas Escolas, voltado a auxiliar professores e jovens no diagnóstico e controle da doença. “Os professores precisam estar atentos a alguns sintomas comuns da doença, como necessidade de ir várias vezes ao banheiro, fome e sede constantes, perda excessiva de peso, fraqueza, fadiga e irritação”, destaca. “Poderíamos minimizar o problema com campanhas de saúde pública nos colégios”, acrescenta.

Segundo Marília, dados do Ministério da Saúde mostram que cerca de 30% da população do Brasil apresenta sobrepeso ou obesidade. "Estes fatos contribuem não apenas para o surgimento precoce do diabetes em crianças e adolescentes, como também de sua associação com outras doenças, como hipertensão arterial e displidemia, o excesso de gordura no sangue, que pode levar ao entupimento das artérias, aumentando o risco de infartos e derrame”, afirma a médica.

E embora o material necessário para controle do diabetes – fitas para medir glicemia e injeções de insulina – seja distribuído gratuitamente pelo Ministério da Saúde, ainda assim, os diabéticos não têm tomado a atitude adequada para controlar a doença. Apesar de 83% dos pacientes verificarem regularmente a glicemia, o número dos que apresentavam boas taxas de controle da doença se mostrou bem baixo. Isso mostra que poucos mantêm a dieta e tomam medicamentos. “Em idade escolar (6 a 12 anos), o índice de crianças com bom controle foi de 26,5%; em adolescentes foi de 17,3%; e em adultos, de apenas 13,2%. E isso com uma doença crônica”, afirma Marilia. É na adolescência, que os cuidados com a doença começam a diminuir, devido à característica dos jovens de dar pouca importância à própria saúde. Com isso, a doença pode se agravar e gerar complicações mais tarde, como danos aos rins e até mesmo amputações. “Por causa dessas complicações, nosso levantamento encontrou 2,5% da população jovem e 65% da população em idade produtiva desempregada, licenciada ou aposentada pelo Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS)”, completa.

No que diz respeito à eficiência do controle do diabetes nas capitais brasileiras, Marilia destaca que a cidade do Rio de Janeiro foi a que apresentou os melhores resultados. “Enquanto São Paulo teve apenas 17% dos pacientes com controle adequado, Fortaleza teve 27%. Já o Rio de Janeiro, apresentou 30% dos pacientes controlados adequadamente”, explica a pesquisadora. “Entretanto, este número ainda é bem pequeno para uma doença cujo tratamento é gratuito e realizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS)”, pondera.

A falta de acompanhamento apropriado das complicações decorrentes da doença também foi apontada pela pesquisa. “No ano anterior à nossa pesquisa, entre 30% e 65% dos entrevistados não tinham rastreado as complicações crônicas que já apresentavam. E pouquíssimos deles tinham feito exames para detectar doenças cardiovasculares, que são responsáveis por até 44% dos índices de mortalidade”, salienta.

O estudo verificou ainda que 42,3% dos diabéticos, principalmente crianças, foram diagnosticados a partir de quadros de cetoacidose – disfunção metabólica grave, caracterizada por baixos níveis relativos de insulina, que exige internação e pode ter consequências deletérias para o paciente. “Em 71,5% deles, isso aconteceu antes dos 15 anos e em 20%, antes dos cinco anos”, complementa. Para a médica, tudo isso aponta para a necessidade de um diagnóstico cada vez mais precoce da doença, o que evitaria altos custos para o Sistema Único de Saúde (SUS) com as internações. “Essa situação acaba fazendo com que os gastos com a doença sejam altíssimos e subestimados pelo SUS”, conclui Marilia.

Autor: Vinicius Zepeda
Fonte: Faperj

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