terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Curiosidades do Café

A história do café teve início em Kaffa, na Abissínia - hoje chamada Etiópia , no continente africano. Apesar de já existir há aproximadamente mil anos, o primeiro registro comprovado da existência do café é do século XV. Tudo começou com um pastor chamado Kaldi, que percebeu que seus animais ficavam mais espertos e saltitantes ao comer folhas e cerejas (fruto vermelho do café) de uma certa planta. Então, o pastor passou também a consumir os frutos e de fato sentiu-se mais alegre e com maior vigor. A notícia não tardou a se espalhar e muitos outros moradores da região de Kaffa passaram a consumir os frutos do cafeeiro, através de infusões. Um desses moradores foi um monge, que utilizava o café para resistir ao sono enquanto orava. 


Durante os séculos XV e XVI, o conhecimento sobre os efeitos da bebida se disseminou rapidamente e o café passou a ser consumido também no Oriente, onde foi torrado pela primeira vez, na Pérsia. Os povos que iniciaram o cultivo da planta foram os árabes. Devido a esse fato, uma das espécies mais importantes de café tem como nome científico Coffea arabica.Porém, mesmo entre os povos árabes, a bebida foi considerada contrária às leis do Profeta Maomé.

Essa resistência ao café foi logo vencida e até mesmo os doutores maometanos aderiram à bebida para auxiliar o processo digestivo e também para alegrar o espírito. O consumo da bebida tornou-se tão popular na Arábia que a infusão do café passou a ser chamada "Kahwah" ou "Cahue", que em árabe significa "força". 

Após conquistar os povos do Oriente, o café foi levado à Europa, em 1675. Porém, como era considerada uma bebida maometana, foi rejeitada inicialmente pelos cristãos. Somente após o Papa Clemente VIII provar o café e "absolver" a bebida da culpa, o consumo foi liberado. O café passou a fazer parte definitiva dos hábitos europeus. 

Diversas casas de café foram abertas e o consumo foi consagrado por nomes famosos como Rousseau, Voltaire, Richelieu, Johann Sebastian Bach, Diderot e outros pensadores, músicos e celebridades. Até mesmo Napoleão Bonaparte, general e imperador da França de 1804 a 1815, foi um dos mais dedicados admiradores do café. Certa vez, disse: "Um café forte e abundante me deixa desperto e atento. O café me dá uma energia e calor além de uma força incomum, uma dor que não ocorre sem prazer. Mas eu prefiro sofrer do que ser um insensato e imbecil". 

Os frutos vermelhos também seduziram os holandeses. E foi através da Holanda e de seu intenso comércio marítimo que o café chegou ao Novo Mundo, ou seja, à América. Os primeiros países a receberem o café foram as Guianas, Martinica, São Domingos, Porto Rico e Cuba. 

A entrada do café em território brasileiro ocorreu no ano de 1727, através do oficial português Francisco de Mello Palheta. Nesse ano, Palheta fora enviado à Guiana Francesa pelo governador do Pará, João da Maia da Gama, para resolver problemas de delimitação de fronteiras. Além disso, o oficial português também havia sido incumbido de uma missão secreta: trazer sementes do fruto que, segundo informações fornecidas pelo governador, tinha grande valor comercial. "Acauzo entrar em quintal, ou jardim ou rossa ahonde houver Caffee, com pretexto de provar alguma fruta, verá se pode esconder algum par de graons com todo o disfarce e toda a cautella", teria recomendado o governador ao missionário português. Na visita à Guiana, Palheta não precisou roubar as sementes; ganhou-as de presente de madame d'Orvilliers, mulher do governador de Caiena. Além das sementes, o oficial também trazia, como presente, cinco mudas da planta. Como estava proibida a saída de sementes e mudas da Guiana Francesa, muitos afirmam que a missão do oficial português teve pitadas de romance e que madame não lhe oferecera somente café, mas outros doces favores. 

No Brasil, as mudas e as sementes foram plantadas inicialmente no Pará. Desta região, o café se disseminou pelo país, passando a ser cultivado em outros Estados. Em 1770, o plantio se iniciava na Bahia. Três anos depois, o desembargador João Alberto Castelo Branco, que foi transferido do Pará para o Rio de Janeiro, levou consigo algumas sementes. Uma das principais áreas de cultivo foi a Baixada Fluminense. 

Foi no Rio de Janeiro que a planta iniciou sua notável expansão por outras regiões do país. Diversas florestas foram desmatadas para o café ser cultivado. Um exemplo disso é o local que hoje abriga a Floresta da Tijuca, que teve sua mata nativa derrubada para a plantação de um grande cafezal. O atual bairro da Tijuca era conhecido na época como "área do café". Posteriormente, por volta do ano de 1860, a planta foi erradicada daquela região. Com uma grande estiagem, em 1844, o ministro Almeida Torres propôs a desapropriação das áreas de plantio com o objetivo de salvar os mananciais da cidade. Dessa forma, foi feito um reflorestamento e, com isso, surgiu a Floresta da Tijuca, que atualmente compõe a paisagem da "cidade maravilhosa". 

Com o desmatamento de florestas, o café foi ganhando espaço e passou a ser cultivado na Serra do Mar e no Vale do Paraíba. Do Rio, as raízes alcançaram os solos férteis dos Estados de São Paulo e Minas Gerais, onde hoje ainda se mantém como uma das principais culturas. 

No final do século XIX e início do século vinte , a cidade de São Paulo já era conhecida por " capital do café ".

O Brasil passou por diversas fases em sua história, tanto em relação à produção extrativista, quanto em relação à exploração da agricultura. Dentre os ciclos econômicos atravessados pelo país estão o da cana, da borracha, do algodão e do ouro. Com o café, aconteceu o mesmo. O Brasil se voltou para o "ouro verde", como passou a ser conhecido, no início do século XIX. Isso aconteceu devido ao esgotamento das reservas de ouro de Minas Gerais e às sucessivas crises internacionais do mercado de açúcar. 

O café também teve influência na política brasileira. Isso pôde ser observado no final do século XIX e início do século XX, quando foi iniciada a "Política do café-com-leite". A liderança política da República Velha era exercida pelos Estados de São Paulo e Minas Gerais, que se destacavam pelo cultivo de café e pela criação de gado leiteiro. Alguns afirmam que a política deveria ter sido chamada "café-com-café", pois Minas também era um grande produtor de café. A "Política do café-com-leite" foi iniciada em 1894, com o presidente Manuel Ferraz de Campos Sales, e só foi encerrada no final da década de 20. 

A aliança entre São Paulo e Minas estava baseada no apoio mútuo, na troca de favores e na concessão de benefícios aos dois Estados. Até mesmo os escravos, que fizeram a história do Brasil no período colonial, ajudaram a escrever a história do café. 

Os escravos negros foram os primeiros a trabalhar nas grandes lavouras do Rio de Janeiro e posteriormente em Minas Gerais e em parte do Estado de São Paulo. A expansão do cultivo, na verdade, coincidiu com o início da campanha abolicionista, o que causou grande preocupação aos fazendeiros de café. De acordo com Celso Furtado, autor de "Formação Econômica do Brasil", a ideia de abolição provocava espanto, diante da possibilidade da diminuição da riqueza. "Prevalecia então a ideia de que um escravo era uma 'riqueza' e que a abolição da escravatura acarretaria o empobrecimento do setor da população que era responsável pela criação de riquezas no país", expõe o economista. 

No entanto, Furtado garante que a abolição teve maior caráter político que econômico. "Abolido o trabalho escravo, praticamente em nenhuma parte houve modificações em real significado na forma de organização da produção e mesmo na distribuição da renda". Em virtude das discussões em torno da abolição, foi criado o PRP (Partido Republicano Paulista), que logo posicionou-se a respeito: em troca do apoio à campanha abolicionista, o partido exigia ações oficiais no sentido de incentivar a vinda de imigrantes europeus. 

Em 1887, um ano antes da assinatura da Lei Áurea, o Brasil já fazia acordos com países europeus, o que deu início à "grande imigração". Em apenas dois anos, aproximadamente 150 mil trabalhadores, em sua maioria italianos, desembarcaram no litoral brasileiro e foram recebidos no interior de São Paulo. Esses, no entanto, não foram os primeiros imigrantes a chegarem ao Brasil. 

A experiência da utilização de mão-de-obra imigrante na lavoura cafeeira já havia sido feita nos idos de 1852, de acordo com o relato de Celso Furtado. O senador Vergueiro teria trazido 80 famílias de camponeses da Alemanha para trabalhar em sua fazenda em Limeira. "A idéia do senador Vergueiro era uma simples adaptação do sistema pelo qual se organizara a emigração inglesa para os EUA na época colonial: o imigrante vendia o seu trabalho futuro", esclarece Furtado. A exploração do trabalho, no entanto, não acabou com a chegada dos imigrantes. 

Os trabalhadores eram obrigados a comprar seus produtos e materiais para subsistência junto aos empregadores, a preços abusivos. Apesar dessas condições, muitos imigrantes europeus permaneceram trabalhando nas lavouras de café. Não há como negar a importância dos braços dos estrangeiros na formação econômica do Brasil e no desenvolvimento da cultura cafeeira no país.

Autor: Dr. Edson Credidio - Médico Nutrólogo, Doutor em Ciências de Alimentos pela Unicamp, Título de Especialista em “Gestão da Qualidade e Segurança dos Alimentos” pela Unicamp, Coordenador do Sistema Nutrosoft, Perito Judicial em Análise de Alimentos e membro da Associação dos Peritos Judiciais do Estado de São Paulo, Membro da International Colleges for the Advancemente of Nutrition - USA, Membro da American College of Nutrition – ACN – USA, Membro do Comitê Científico do Food Ingredients South America, Membro Titular da Academia Latino – Americana de Nutrologia e Autor com dezesseis livros publicados.

Fonte: Nutrosoft

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