sexta-feira, 13 de abril de 2012

Projeto investiga a ação do Trypanosoma cruzi para prevenir o diabetes tipo 1

Doença autoimune que leva à destruição das células responsáveis pela produção do hormônio insulina, o diabetes tipo 1 impede que o açúcar absorvido pelo corpo humano seja transformado em energia. Em decorrência, o nível de glicose na corrente sanguínea torna-se excessivo. Entre várias complicações, podem surgir problemas de visão, nos rins e no coração. Mas uma pesquisa coordenada pelo professor José Mengel, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), aponta para o que pode vir a ser uma alternativa inusitada para a prevenção da doença. Contraditoriamente, a saída pode estar no causador de outra doença. O Trypanosoma cruzi, protozoário da doença de Chagas, parece ser capaz de induzir à proteção total ao desenvolvimento do diabetes tipo 1, em camundongos.

Esse resultado vem sendo observado em camundongos infectados pelo Trypanosoma cruzi, no Laboratório Associado de Imunologia Viral, da Faculdade de Medicina de Petrópolis. A pesquisa, realizada desde 2008, foi contemplada pela FAPERJ, com o edital de Apoio à Pesquisa Básica (APQ 1). “O objetivo do projeto é estudar os mecanismos pelos quais o Trypanosoma cruzi protege os camundongos do desenvolvimento do diabetes tipo 1”, conta Mengel. “No experimento, injetamos nos camundongos uma cepa avirulenta de Trypanosoma cruzi, isto é, sem capacidade de infectar o hospedeiro, que se mostrou capaz de prevenir em 100% o desenvolvimento do diabetes nos animais”, detalha o pesquisador.

Como não se pode gerar uma doença para prevenir o surgimento de outra, Mengel e sua equipe estão tentando identificar quais são as moléculas produzidas pelo Trypanosoma cruzi com potencial para prevenir o surgimento do diabetes tipo 1. Depois de identificadas, elas poderão ser a base para a produção de um medicamento para a prevenção da doença. “Por enquanto, verificamos que o Trypanosoma cruzi produz alguma substância que induz o aumento da expressão de uma molécula denominada PD-L1. Ela é capaz de desligar a célula (linfócito) que desencadeia o diabetes tipo 1, responsável pela resposta imune contra as células do pâncreas”, explica.

De acordo com Mengel, o aumento da prevalência do diabetes tipo 1 nas últimas décadas está relacionado às condições de vida da sociedade pós-industrial. “A teoria higienista, apresentada pela primeira vez pelo pesquisador David Strachan, da London School of Hygiene and Tropical Medicine, associa o aumento da prevalência de doenças autoimunes e alérgicas, entre elas o diabetes tipo 1, às populações com alto nível de desenvolvimento socioeconômico, que não tem contatos com ‘fatores protetores’, como alguns parasitas e micro-organismos, e costumam fazer uso de antibióticos com muita freqüência, esterilizando a flora intestinal de micro-organismos protetores, conta.

Nesse contexto, o projeto dá o primeiro passo para que, algum dia, a fabricação de um medicamento para prevenir o diabetes tipo 1 seja possível. “É um campo de pesquisa absolutamente novo. A vantagem da nossa proposta é que seria um medicamento biológico, de baixa toxicidade e que poderia ser usado por muito tempo”, destaca o médico. 

“O medicamento poderia ser usado para prevenir o surgimento da doença ainda na fase de pré-diabetes, quando há a chance de reverter seu desenvolvimento. Especialmente, nos casos de crianças que já tenham histórico familiar de diabetes tipo 1 ou para prevenir a ocorrência da doença em pessoas que acabaram de fazer transplante autólogo de medula óssea”, conclui. 

Além de Mengel, participam do projeto outros pesquisadores da Fiocruz. São eles: a veterinária Fabiene Petitinga de Paiva; o biólogo Daniel Ruber Pessina, que conta com bolsa de pós-doutorado pelo programa Inovatec – FAPERJ/Fiocruz; e os estudantes de graduação do Curso de Medicina da FMP-FASE Barbara Noel, Beatriz Noel, Edicelli Loureiro e Bruno Andrade Silva, que desenvolvem projetos de iniciação científica no laboratório. 

Fonte: FAPERJ

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